Manuel António Pina (1943 – 2012)

“Conduzia um dia destes em direcção à Póvoa de Varzim, onde se realizavam as Correntes de Escritas, quando, não muito longe da saída que dá acesso à cidade, vi um automóvel que seguia uns duzentos metros à minha frente afrouxar, abrir-se a porta direita traseira e, de lá de dentro, um pequeno cão preto e branco, talvez um fox-terrier, ser atirado fora como um saco de lixo. O cão levantou-se em pânico, correu ainda uns metros atrás do automóvel e, depois, deixou-se ficar ali, atónito, vendo-o afastar-se. O carro que me precedia parou na berma e o condutor saiu dirigindo-se ao animal, mas este fugiu, assustado, e desapareceu num pinhal próximo. Parei igualmente e o homem virou-se para mim: – Viu o que aconteceu? – Vi – respondi eu. – Filhos da p… – disse ele, abanando a cabeça como se falasse consigo mesmo. Regressámos aos carros e retomámos viagem, eu procurando ainda o cão com os olhos para lá da berma. No Antigo Egipto, durante o julgamento dos mortos no Além, os deuses ponderavam a verdade que existia no coração de cada um colocando no prato da balança não só o comportamento do homem em relação aos seus semelhantes mas também em relação à natureza. «O morto (…) pronunciava as palavras seguintes: “Não roubei nem forragem nem ervas da boca do gado” e ainda “Não maltratei nenhum animal”. Qualquer falta de respeito para com o animal como criatura era considerada pecado. Consequentemente, a ética egípcia outorgava ao animal o direito de apresentar queixa contra o homem. [As pirâmides da 5.ª e 6.ª dinastias] exibem uma sentença que justifica os falecidos reis: “Não existe qualquer queixa contra Fulano por parte de um vivo/ Não existe qualquer queixa contra Fulano por parte de um morto/ Não existe qualquer queixa contra Fulano por parte de um ganso/ Não existe qualquer queixa contra Fulano por parte de uma vaca”. O ganso e a vaca representam o reino animal.» (E. Brunner-Taut, apud E. Drewermann, Da Imortalidade dos Animais). Infelizmente, se o cristianismo foi buscar à religião mítica egípcia conceitos como o de ressurreição e de ascensão da alma ao céu, o seu antropocentrismo, colocando o homem como razão primeira e última do próprio Universo e considerando-o, duzentos anos depois de Darwin, um ser à parte superior aos restantes seres, que existiriam tão-só em função do homem e para o servir, legitima ideologicamente todos os abusos contra os animais e a natureza em geral. É na matriz cultural judaico-cristã que deve talvez ser procurada a ténue reprovação moral com que muitos de nós ainda encaram os maus-tratos a animais, considerados mera matéria-prima e fonte de lucro ou objecto descartável sem qualquer sentimento de culpa. Na Póvoa, onde fui falar de poesia, a tragédia vivida pelo pobre cão atirado à auto-estrada, incapaz de compreender o que acontecera, encheu-me de compaixão e lembrou-me melancolicamente o poeta católico basco Francis Jammes, que Rilke, Proust, Claudel e Kafka admiraram: «No olhar dos animais existe uma luz profunda e suavemente triste que me inspira uma simpatia tão grande que o meu coração se abre como um hospício para acolher todo o sofrimento das criaturas. A miserável pileca que dorme debaixo da chuva nocturna, diante de um café, a cabeça caída até ao chão, um gato atropelado, um pardal ferido que procura refúgio num buraco de um muro – todos estes sofrimentos cabem para sempre no meu coração. Se não fosse o respeito humano, eu ter-me-ia ajoelhado perante tanta paciência, tantas torturas, porque eu via uma auréola em volta das cabeças desses seres dolorosos, uma verdadeira auréola, grande como o Universo, colocada pela própria mão de Deus.»”
Manuel António Pina in Notícias Magazine

Uma resposta to “Manuel António Pina (1943 – 2012)”

  1. Teresa Líbano Monteiro Says:

    muito obrigada, António Pina, pelo que conta e pelas palavras que cita que fazem eco no meu coração em todos os que têm compaixão pelos animais. Teresa Líbano Monteiro

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