Inevitável é a esterilização, não o abate – Resposta ao artigo de João Miguel Tavares ( Jornal Público 1 de Setembro )

https://www.publico.pt/2018/09/01/politica/opiniao/abater-caes-e-gatos-e-mau-sim-mas-e-necessario-1842617

A continuação do abate de cães e gatos tem vindo a ser apresentado por muita gente como uma inevitabilidade. O abate é visto como um mal menor porque a alternativa seria o descontrolo completo dos animais abandonados , pondo em risco a saúde e segurança das pessoas. João Miguel Tavares é só mais uma dessas pessoas que, no Público, acrescentou ainda o argumento de que a “estúpida” lei que entra em vigor este mês “vai prejudicar os animais que deveria proteger”. Nada mais errado e vamos procurar explicar porquê.

Os defensores da inevitabilidade dos abates deviam começar por avaliar os resultados da prática das últimas décadas, em que todos os anos dezenas de milhares de animais são abandonados e outros tantos abatidos. Durante esse período, as câmaras nunca deixaram de abater, fizeram-no até com uma eficácia arrepiante, e o que conseguiram com isso? Reduziram o abandono? Não. Baixaram o número de abates? Não. Se assim foi, é porque a estratégia está errada. E se está errada, é preciso uma alternativa.

A única forma de acabar com os abates é a prevenção. E a prevenção aqui chama-se esterilização. É preciso esterilizar os errantes, os animais dados em adopção pelos canis, as cadelas que estão a parir nas ruas e apoiar os donos que não têm meios para o fazer. O próprio João Miguel Tavares reconhece que, “quando falha a esterilização, a velocidade a que nascem (os animais) supera largamente a velocidade a que morrem”. Infelizmente, não volta ao tema e é pena porque é por aí que passa a solução.

Provavelmente, o colunista do Público entende, como muita gente, que primeiro é preciso esterilizar e controlar o abandono e depois sim pode acabar-se com os abates. Infelizmente, é ao contrário. Como a experiência mostra, a maioria das câmaras resiste a esta prática. Se podem abater os animais, para quê esterilizá-los? Por ser assim, por pensarem e actuarem deste modo, percebeu-se que era preciso começar por proibir os abates de modo a que as câmaras não tivessem outra possibilidade senão a esterilização. No fundo, trata-se de inverter a lógica das inevitabilidades. O abate deixa de ser inevitável porque passa a ser proibido. E a esterilização passa a ser inevitável. 

A lei que entra em vigor este mês – e que, em abono da verdade, partiu do PCP e não do PAN – deu às câmaras um período de transição durante o qual deveriam iniciar as campanhas de esterilização ao mesmo tempo que ainda podiam abater animais; o Governo teve os mesmos dois anos para apoiar eficazmente as esterilizações das câmaras. Como sempre acontece em Portugal, a maioria das câmaras deixou tudo para o fim e só agora se nota, finalmente, um nítido progresso no número de autarquias que iniciam programas de esterilização, nomeadamente para munícipes carenciados.

Se o fim dos abates fosse prorrogado, como muitos defendem, este movimento de avanço seria com certeza travado e os progressos realizados nos últimos meses perder-se-iam. Seriam mais anos e anos de mortandade. Sem qualquer dignidade e sem qualquer utilidade.

Campanha de Esterilização de Animais Abandonados

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